terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Análise de Poemas
(Fernando Pessoa)

Análise do poema “Aniversário”(Álvaro de Campos)



Escrito em 1929, portanto já um poema de maturidade de Pessoa, o poema "Aniversário" pode certamente contar-se entre os poemas mais tristes e simultaneamente pungentes de toda a obra do poeta. Lembremos porém, e em antecipação à análise propriamente dita, a biografia deste heterónimo. Campos é o heterónimo da modernidade em Pessoa, é o escandaloso, o extrovertido, cuja poesia (sobretudo em prosa) propícia a oralidade - é feita quase para ser declamada em voz alta. Sem métrica definida, muitas das vezes autor de longas odes, Campos marca a diferença também por essa forma de encarar a poesia. O caos do seu método é o caos do mundo moderno que ele retrata tão magistralmente, quer nos momentos activos (fase modernista), quer passivos (fases decandentista e pessimista). O poema "Aniversário" enquadra-se precisamente na última fase do poeta, a fase dita "pessimista", em que os temas abordados por Campos voam em redor da sua desilusão com a vida, com a amargura e a lembrança de um passado para onde nunca mais poderá regressar. "Aniversário" é mesmo marcado por essa recordação da infância: " No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto". Campos parece referir-se aos anos de infância de Pessoa, em que nenhum dos seus irmãos tinha ainda morrido, e o seu próprio pai ainda o acompanhava. Nesse "tempo", festejar os anos era ainda uma festa inocente e feliz. Tudo isto na "casa antiga", na casa de infância. Talvez a casa do Largo de S. Carlos, ao Chiado, onde nasceu. Esse tempo passado é um tempo feliz, mas simultaneamente um tempo perdido, porque as crianças não sabem que são felizes, só mais tarde quando recordam. As crianças têm "a grande saúde de não perceber coisa nenhuma". Tudo isso se perdeu. Perdeu-se "o menino". "O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), / O que eu sou hoje é terem vendido a casa, / É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio..." Passa uma grande desilusão nestas palavras. A infância perdeu-se para nunca mais regressar igual, e o hoje o poeta sente essa perda como a perda da sua identidade feliz. Ele apenas sobrevive, como "um fósforo frio", ou seja, um cadáver que vive, mas sem função, abandonado, sem utilidade. Campos deseja reatar o fogo apagado,", comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!", mas não o vai conseguir. Ele sabe-o quando diz: " Pára, meu coração! / Não penses! Deixa o pensar na cabeça!" Deixar de pensar é, em Pessoa, alcançar a paz dos simples de espírito, daqueles que vivem simplesmente a vida: um objectivo que ele paradoxalmente sempre perseguirá, sendo ao mesmo tempo o maior dos poetas racionais.


Análise do poema "O que há em mim é sobretudo cansaço"(Álvaro de Campos)


Pessoa diz, na célebre carta em que relata a origem dos heterónimos (e que pode ler na secção Ensaios do Major Reformado), o seguinte: O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea em verso.)" O assunto da simulação, vasto em Pessoa, encontra em Álvaro de Campos uma encruzilhada. Porque para Pessoa, escrever a Prosa de Campos é "difícil". Porquê? Porque em Campos, encontramos temas sensíveis a Pessoa e que Pessoa deslocaliza, pelo menos emocionalmente, para a caneta do seu heterónimo engenheiro naval. Esses temas são nomeadamente, os relativos à infância, à memória da sua mãe e das viagens para a África do Sul. Como nasce Campos? Pessoa diz na mesma carta: "E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo individuo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.". Ou seja, Campos surge em oposição a Reis, o que Reis tem de exacto, Campos tem de maleável, o que Reis apresenta de rigoroso, Campos demonstra irracional. Poeta sensacionista por excelência, escandaloso e moderno, Campos descreve um mundo em mudança, por efeito retardado (pelo menos em Portugal) da revolução industrial. Mas há, mesmo em Campos, 3 fases distintas (Prado Coelho). A do Opiário (1914); a das grandes Odes (1914-16) e a fase pessoal, que termina com a própria morte de Pessoa (1916-35). Choca em contraste que o poeta poderoso, à Whitman, que exorta delirante a máquina, que fala do peito as proezas da Energia e do Progresso, surja por vezes tão assumidamente deixado ao tédio, que quase abúlico, fica morto de entusiasmo e capturado pelo niilismo. Prado Coelho diz-nos que "Campos sentiu como Whitman para deixar de sentir como Campos" (in Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa). Tão semelhante se torna a Pessoa, que Pessoa o traz consigo para a vida do dia-a-dia, falando por exemplo dele a Ophélia de Campos, como se pela sua própria voz. Campo é a parte desligada da realidade emocional de Pessoa. Nele Pessoa escreve mais despreocupado do que se escrevesse em nome próprio, e sente segurança para se deitar ao lamentos de uma vida de sofrimento. Campos é menos sereno, é mais intranquilo, mais solto, energético mesmo quando deitado ao tédio, do que Pessoa-ele mesmo. O poema de que pede uma análise é um poema típico de abulia de Campos, é um texto filho da herança do grande texto em prosa Passagem das Horas (1916). O tom heróico, Whitmaniano, deixa de se ouvir, para Campos se deixar dominar por Pessoa, num tom mortal e lento, litanias nocturnas, textos deixados à confissão, sem filtros racionais. A consciência que Caeiro quer não enfrentar, Campos perde-a pelo exagero (Eduardo Lourenço). A noite "materna" invade-o. Porque assombrado pela memória da mãe, da infância perdida, a sua sinceridade acha apenas cansaço, quando ele se vê perto da morte, sem esperança de um regresso impossível à felicidade infantil. A noite é, em sentido literal, a sua própria mãe, que o abandona, mas nunca deixa de o dominar. Analisando o poema:

"O que há em mim é sobretudo cansaço/ Não disto nem daquilo, /Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, /Cansaço." Ele fala do cansaço assumido como coisa em si mesma, sem já ser condição. Este tédio, que perpassa também na obra de Bernardo Soares, soa muito a desapontamento, a conclusões falhadas, objectivos não atingidos. "A subtileza das sensações inúteis, /As paixões violentas por coisa nenhuma, /Os amores intensos por o suposto alguém. /Essas coisas todas - /Essas e o que faz falta nelas eternamente -; /Tudo isso faz um cansaço, /Este cansaço, /Cansaço." É um discurso contra a acção, contra a vontade, que no mundo não é operante, mas destinada ao fracasso. Campos elenca coisas que todos perseguem - as sensações, as paixões, o amor - e diz que todas elas falham em significado. "Há sem dúvida quem ame o infinito, /Há sem dúvida quem deseje o impossível, /Há sem dúvida quem não queira nada - /Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: /Porque eu amo infinitamente o finito, /Porque eu desejo impossivelmente o possível, /Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, /Ou até se não puder ser..." Aqui Campos ironiza com aqueles que pretendem ter maiores pretensões do que aquelas que ele acha possível. Há quem ame o infinito - os amantes do conhecimento, os filósofos e os religiosos; há quem deseje o impossível - os sonhadores, os ambiciosos; há quem não queira nada - os pessimistas, os humildes. Todos eles - segundo Campos - erram, por serem idealistas. Ele ama infinitamente o finito - ou seja, quer tudo no nada, quer a compreensão subtil do desconhecido - quer o paradoxo, inatingível, mas contínuo na sua loucura. "E o resultado? /Para eles a vida vivida ou sonhada, /Para eles o sonho sonhado ou vivido, /Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... /Para mim só um grande, um profundo, /E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, /Um supremíssimo cansaço. /Íssimo, íssimo. Íssimo, /Cansaço...". O resultado - Campos anuncia-o, pondo-se acima de todos aqueles que critica - é para os outros a vida. Mas para Campos, a vida não chega, em parte porque ele próprio nunca se sente satisfeito - não tem a riqueza, a fama, a mãe, a infância, sobretudo a tranquilidade e a paz de espírito para trabalhar. Por isso ele, quando se diz insatisfeito, revela-se invejoso da vida alheia. Campos-Pessoa está cansado por não ter atingido o que para os outros é tão fácil, porque os outros não duvidam, são empreendedores, mesmo quando nada desejam. Deixam-se à vida, serenos ou irados, mas completos, humanos, que vivem e que morrem sem perguntas. Campos-Pessoa não é um ser assim, pois em si mesmo rumina uma intensa intranquilidade, que ele justifica como cansaço, não-agir, em razão de não aceitar o seu fracasso no mundo."Eu dividiria o poema em 4 partes: 1) Explicação das sensações de cansaço, 2) A racionalização/explicação da sensação de cansaço, 3) Comparação e 4) Conclusão.

Concordo que o poema é da "3.ª Fase", a fase pessoal (Jacinto Prado Coelho) ou "Fase Pessimista", como aparentemente está no programa do 12.º ano de Português. Tenha só em atenção que a 3.ª fase é posterior não só ao futurismo mas ao sensacionismo (a vivência exagerada das emoções) da 2.ª fase. Ele de facto "lutou que nem um desgraçado", embora possa soar melhor se disser que ele "ficou desiludido com os seus esforços e energia despendidos na exortação do sonho". Eu teria cuidado a comparar Caeiro com Campos. Com efeito, Caeiro não sofre do cansaço, como Campos, porque Caeiro é "contente", "satisfeito", vê beleza em não compreender. Caeiro aceita a derrota de não pensar, enquanto Campos se desilude com ela. O cansaço não é de algum modo igual em ambos os heterónimos. A palavra-chave em Caeiro é "Ataraxia" (tranquilidade) enquanto em Campos será "Intranquilidade". Concordo que o exagero traz o cansaço, porque a energia se dilui na realidade que não o satisfaz. Na comparação é que se encontra a semelhança a Caeiro - o Afastamento dos outros. Caeiro também se afasta, dizendo que os outros pensam desnecessariamente as coisas, quando as devem só viver sem pensar. Campos e Caeiro têm essa característica, do afastamento. Na conclusão, a palavra "isto...", julgo que ele se refere à vida. Relembro-lhe que o cansaço de que ele fala, é o cansaço de não atingir o sonho que ele desenhou para si mesmo. O "isto..." que ele vê nos outros, é, para ele, um "isto..." insuficiente. O adjectivo infecundo faz todo o sentido. Veja que ele está com ódio de não ter conseguido, por isso dá-se (quase masoquistamente) por contente por ter fracassado. É uma maneira de ele justificar o seu cansaço, assumindo de tal modo a derrota, que lhe parece um sucesso fracassar assim, de modo tão magnífico e total. Parece estranho, mas era assim que pensava Pessoa, no seu íntimo, pelo que me é dado analisar e por comparação pela minha própria experiência de vida. O poema é de facto paradoxal, porque é um lamento. A dor muita das vezes não faz sentido, quando a analisamos.


Análise do poema “Opiário”(Álvaro de Campos)


“No poema Opiário, Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa) escreve quadras, estrofes de quatro versos, de teor autobiográfico, se apresentando amargurado e insatisfeito. Ainda sob influência simbolista, há preocupação com a métrica e com a rima. Este é o único poema da primeira fase de Campos, a fase da morbidez e do torpor (Decadentismo). Exprime o tédio, o enfado, o cansaço, a náusea, o abatimento e a necessidade de novas sensações. Traduz a falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia. É marcado pelo romantismo e simbolismo (rebuscamento, preciosismo, símbolos e imagens). Álvaro de Campos declara-se decadente, quando se refere ao Opiário. O poema imita-lhe desde a nostalgia de além, a morbidez snob de um saturado de civilização, a embriagues do ópio e dos sonhos de um Oriente que não há, o horror à vida, o realismo satírico de certas notações, até ao vocabulário entre precioso e vulgar, às imagens, símbolos, estilo confessional brusco, amimado e divulgativo, ao ritmo dos decassílabos agrupados em quadras. Opiário foi oferecido a Mário de Sá-Carneiro e escrito enquanto navegava pelo Canal do Suez, em Março de 1914.


Análise do poema “Ode Triunfal”(Álvaro de Campos)


O sujeito poético neste poema exprime com exaltação e excesso o seu orgulho em ser moderno e contemporâneo de uma beleza industrial “totalmente desconhecida dos antigos” num desejo assumido de acolher todas as sensações. O poeta representa de forma exagerada o louvor ao mundo moderno.


Análise do poema" Eu nunca guardei rebanhos" ( Alberto Caeiro)

O poeta compara-se a um pastor que anda pelos campos a guardar rebanhos, neste caso, os seus rebanhos são os seus pensamentos.
O sujeito poético identifica-se bastante com a natureza, pois ele afirma que anda ao ritmo das estações, compara os seus estados de espírito com momentos de natureza.
Na ultima estrofe do poema o sujeito poético apresenta uma saudação de uma especie de camponês que tira o chapéu em sinal de respeito e deseja aquilo que é mais importante para o Homem ligado á natureza.
Alberto Caeiro afirma-se um poeta que exprime o desejo de abolir a consciência, isto é, o vicio de pensar, lamentando o facto de ter consciência dos seus pensamentos, enunciando repetidamente o acto de ver, além de outras sensações.

Análise do poema "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio"(Ricardo Reis)
1ª Estrofe
· Convite à fruição amorosa serena, uma vez que a vida é breve.
2ª Estrofe
·        Consciência da efemeridade da vida, da impossibilidade de voltar a vive-la, uma vez que o “fado” tudo controla.
3ª Estrofe
· Desenlace amoroso, pois é preciso evitar os grandes desassossegos para evitar a dor.
4ª Estrofe
· É necessário evitar todos os desassossegos que podem trazer a dor.
5ª Estrofe
· Convite á fruição amorosa tranquila, espiritual, evitando os excessos de amor físico.
6ª Estrofe
· Valorização do “carpe diem”, colhendo o “perfume” do momento evitando o conhecimento das coisas.
7 e 8 Estrofes
· Conclusão do poema e justificação para o modelo de vivência amorosa defendido pelo poeta: se um deles morrer antes o outro não terá que sofrer por isso, uma vez que viveram um amor inocente, sem excessos.
  O sujeito neste poema propõe a Lídia uma relação tranquila, contida, sem envolvimento nem paixão, como única forma de evitar o sofrimento provocado pela separação que a morte de um deles poderia trazer.
No poema, são notórios os conceitos de epicurismo e estoicismo, aqui fundidos: se a vida passa e não se pode evitar a morte, é preciso, por um lado, aproveitar totalmente o presente (epicurismo) e, por outro lado vivê-lo com serena e disciplinada aceitação do destino (estoicismo).
 















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